PRÓLOGO
A NOITE EM QUE QUASE A PERDI
POV: ENZO
Eu sempre achei que teria tempo.
Essa talvez tenha sido a coisa mais estúpida em que acreditei na vida.
Tempo para continuar provocando Serena só para vê-la estreitar os olhos para mim.
Tempo para entrar em uma sala e fingir que não procurava por ela antes de qualquer outra pessoa.
Tempo para ouvir aquela boca atrevida me mandar para o inferno e esconder o quanto eu gostava quando ela era a única naquele lugar que não parecia se importar com quem eu era.
Tempo para vê-la ao lado da minha irmã.
Ao lado da minha família.
Ao meu lado, mesmo sem saber que era exatamente ali que eu sempre quis que ela estivesse.
Tempo para continuar fingindo.
Tempo para contar a verdade algum dia.
Talvez amanhã.
Talvez quando eu estivesse pronto.
Talvez quando encontrasse uma maneira de amar Serena Silva sem entregar aos meus inimigos a única arma capaz de me destruir.
Mas algumas verdades não esperam.
Descobri isso com as mãos cobertas pelo sangue dela.
— Serena.
Minha voz não parecia minha.
Pressionei a mão contra o ferimento no peito dela.
Sangue quente escapou entre meus dedos.
Muito.
Sangue demais.
— Olha para mim.
Os olhos dela se abriram por um instante.
Só um.
Mas foi suficiente para alguma coisa dentro de mim se partir.
— Isso. — Minha voz saiu baixa. Firme. Precisava ser firme. — Fica comigo.
Serena tentou respirar.
O som que saiu dela fez meu estômago se contrair.
Eu já tinha ouvido homens morrendo.
Já tinha visto corpos destruídos por balas.
Já tinha sentido sangue secar nas minhas mãos e continuado comendo horas depois como se nada tivesse acontecido.
A morte nunca me impressionou.
Naquele momento, eu descobri que dependia de quem estava morrendo.
— Enzo...
Quase não ouvi.
Aproximei o rosto.
— Estou aqui.
Os dedos dela se moveram contra minha camisa.
Fracos.
Serena nunca fazia nada de forma fraca.
Discutia como se cada argumento fosse uma guerra pessoal.
Enfrentava Diana quando achava que minha irmã estava errada.
Me enfrentava com ainda mais prazer.
Nunca baixava os olhos.
Nunca recuava.
Nunca precisava que ninguém falasse por ela.
E agora mal conseguia segurar minha camisa.
— Não fecha os olhos.
Ela fechou.
— Serena.
Nada.
— Abre os olhos.
Nada.
O mundo inteiro ficou pequeno.
Não existia mais família.
Não existia império.
Não existia Francesca.
Não existia Dante.
Não existiam homens esperando minhas ordens.
Não existia o filho de Luciano Draven.
Não existia o herdeiro de Sandra Francesca.
Só existia uma mulher sangrando nos meus braços.
E eu não podia fazer porra nenhuma para obrigá-la a ficar.
— Serena!
Alguém se aproximou.
— Enzo, precisamos—
— Não toca nela.
A voz saiu tão baixa que o homem parou.
Eu nem olhei para ele.
Minha atenção continuava no rosto de Serena.
Pálido demais.
Quieto demais.
— A equipe médica está vindo.
Eu sabia.
Sabia quantos minutos tinham passado.
Sabia onde estavam os carros.
Sabia quantos homens ainda procuravam os responsáveis.
Sabia quantas saídas existiam.
Sabia quem estava vivo.
Quem estava ferido.
Quem eu precisava encontrar.
Minha cabeça continuava funcionando.
Era isso que eu fazia.
Quando todos perdiam o controle, eu pensava.
Quando o medo entrava em uma sala, eu o usava.
Quando alguém cometia um erro, eu encontrava a falha.
Quando alguém traía minha família, eu encontrava o traidor.
E quando encontrava...
Ele aprendia.
Todos aprendiam.
Mas nada daquilo servia para Serena.
Nenhuma ameaça faria o sangue voltar para o corpo dela.
Nenhum homem que eu torturasse faria aquela bala desaparecer.
Nenhuma quantidade de dinheiro compraria a próxima batida do coração dela.
Nenhum sobrenome obrigaria a morte a recuar.
Eu podia colocar o submundo inteiro de joelhos.
Podia incendiar negócios.
Destruir famílias criminosas.
Caçar cada homem envolvido até o último buraco em que tentassem se esconder.
Podia arrancar nomes, rotas e segredos de quem soubesse alguma coisa.
E faria.
Se Serena morresse, haveria homens que passariam os últimos minutos da própria vida desejando nunca ter ouvido o nome Francesca.
Não.
Dante.
Porque eu encontraria cada um deles.
E, quando terminasse, o submundo entenderia o que aquele nome significava.
Mas nada disso a salvaria.
Aquela era a parte que estava me destruindo.
Eu podia punir.
Não podia salvar.
— Por que você fez isso? — murmurei.
Eu sabia por quê.
O tiro tinha sido para Diana.
Serena viu.
E entrou na frente.
Sem pensar duas vezes.
É claro que entrou.
Minha irmã era família para ela.
Serena podia não ter nascido Francesca, mas ninguém precisava explicar a ela o significado de lealdade.
Teimosa.
Impulsiva.
Corajosa.
Completamente insuportável.
Minha Serena.
A palavra surgiu dentro de mim antes que eu pudesse impedi-la.
Minha.
Quase ri.
Que direito eu tinha?
Passei anos garantindo que ela acreditasse exatamente no contrário.
Cada vez que Serena chegou perto demais, eu provoquei.
Cada vez que meu olhar demorou mais do que deveria, transformei em brincadeira.
Cada vez que senti ciúme, escondi atrás de um sorriso.
Cada vez que quis tocá-la, lembrei a mim mesmo de tudo que carregava nas costas.
Tudo que um dia seria meu.
Todos os inimigos que vinham junto.
E mantive distância.
Era melhor assim.
Foi o que disse a mim mesmo durante anos.
Serena merecia uma vida em que não precisasse olhar debaixo do carro antes de entrar.
Uma vida em que um jantar não exigisse homens armados do lado de fora.
Uma vida em que amar alguém não pudesse colocar um alvo nas costas dela.
Então fiz o que achei que precisava fazer.
Deixei Serena acreditar que eu não a queria.
Pior.
Deixei que acreditasse que eu nunca a amaria.
E agora ela podia morrer levando essa mentira com ela.
Minha mão tremeu.
Olhei para os meus dedos.
Eu nunca tremia.
Fechei a mão ensanguentada.
— Não.
A palavra saiu como uma ordem.
Serena não reagiu.
Abaixei o rosto até minha testa tocar a dela.
— Você não vai fazer isso comigo.
Nenhuma resposta.
— Está ouvindo? Você não vai morrer.
Eu estava ordenando que ela vivesse.
Patético.
Mas continuei.
— Você ainda tem um milhão de coisas para jogar na minha cara. Ainda precisa me dizer que eu sou um idiota pelo menos mais umas dez mil vezes.
Nada.
Minha garganta fechou.
— Ainda precisa descobrir que estava errada.
Silêncio.
Engoli em seco.
Eu tinha interrogado homens sem piscar enquanto eles gritavam.
Já tinha encarado armas apontadas para mim.
Já tinha entrado em lugares sabendo que talvez não saísse.
Nunca tive medo da morte.
Nem da minha.
Naquela noite, descobri o que era medo.
Medo era sentir o sangue de Serena esfriar nas minhas mãos.
Medo era procurar o pulso dela outra vez mesmo sabendo que havia pessoas mais qualificadas a caminho.
Medo era imaginar Diana acordando amanhã sem a melhor amiga.
Giulia sem a filha.
Minha mãe olhando para uma cadeira vazia.
E eu...
Eu entrando em uma sala e não encontrando Serena nela.
Nunca mais.
Não ouvir a risada.
Não ouvir uma provocação.
Não vê-la discutir comigo.
Não vê-la me olhar daquele jeito que sempre parecia atravessar todas as camadas que eu colocava entre mim e o resto do mundo.
Um mundo inteiro sem Serena Silva.
Aquilo me aterrorizava.
— Eu amo você.
As palavras saíram antes que eu pudesse detê-las.
Tarde demais.
Talvez anos tarde demais.
— Está ouvindo, Serena?
Segurei o rosto dela com a mão que não pressionava o ferimento.
— Eu amo você.
Nenhuma reação.
Meu peito queimou.
— Sempre amei.
Ela precisava ouvir.
Mesmo inconsciente.
Mesmo que aquela fosse a última coisa que eu dissesse a ela.
— Fui covarde demais para admitir. Achei que manter você longe de mim significava manter você segura.
Olhei para o sangue.
Quase soltei uma risada amarga.
Belo trabalho, Enzo.
— Então abre os olhos e pode passar o resto da vida me lembrando do quanto eu fui estúpido.
Nada.
Ouvi movimento.
Dessa vez deixei que se aproximassem.
Mãos treinadas começaram a trabalhar ao nosso redor.
Perguntas.
Ordens.
Equipamentos.
Tentaram afastar minhas mãos.
Demorei um segundo para obedecer.
Um segundo longo demais.
Então tirei a mão do ferimento.
O sangue dela cobria minha palma inteira.
Fiquei olhando.
Serena foi retirada dos meus braços.
E alguma coisa primitiva dentro de mim quis agarrá-la de volta.
Não fiz isso.
Ela precisava deles.
Não de mim.
Levantei.
Meu corpo parecia frio.
Meu rosto também.
Foi naquele instante que o medo mudou.
Continuava ali.
Mas havia outra coisa crescendo por cima dele.
Uma coisa que eu conhecia muito melhor.
Promessa.
Olhei para o sangue de Serena nas minhas mãos.
Quem tinha organizado aquilo ainda respirava.
Quem tinha ajudado ainda respirava.
Quem tinha vendido informação, aberto uma porta, fornecido uma rota ou decidido que tocar na minha família era uma boa ideia...
Ainda respirava.
Por enquanto.
Não sabia quantos eram.
Não sabia todos os nomes.
Ainda.
Mas descobriria.
E não haveria negociação.
Não haveria dinheiro suficiente.
Não haveria sobrenome importante o bastante.
Não haveria fronteira distante o bastante.
Eles tinham cometido o erro de acreditar que conheciam os Francesca.
Conheciam meus pais.
Conheciam as regras deles.
Conheciam o respeito que Sandra Francesca e Luciano Draven tinham imposto ao submundo.
Ainda não me conheciam.
Fechei os dedos sobre o sangue dela.
Conheceriam Enzo Dante.
Mas não naquela noite.
Naquela noite eu não queria vingança.
Não queria poder.
Não queria um império.
Queria apenas que Serena abrisse os olhos.
E, se abrisse...
Se me fosse concedida uma única oportunidade de desfazer a mentira que alimentei durante anos...
Ela nunca mais precisaria adivinhar.
Nunca mais precisaria interpretar uma provocação, um olhar ou um silêncio.
Nunca mais acreditaria que não era amada.
Porque eu diria.
Quantas vezes fossem necessárias.
Mesmo que Serena não me escolhesse.
Mesmo que me mandasse para o inferno.
Mesmo que decidisse que amar Enzo Dante era um preço que não queria pagar.
A escolha seria dela.
Mas a dúvida...
A dúvida eu nunca mais permitiria.
Porque naquela noite finalmente entendi uma verdade que nenhum império tinha conseguido me ensinar.
Eu não tinha medo de morrer.
Não tinha medo de perder poder.
Não tinha medo de homens, armas ou guerras.
Tinha medo de uma única coisa.
Um mundo em que Serena Silva não existisse.